Os angiomas do meu pai

O meu pai tem 52 anos atualmente. Ele tem angiomas cavernosos na cabeça. Uma doença pouco conhecida e com poucos casos que se conheça. Onde o estudo é pouco e pouco se sabe… Não se sabe como prevenir, o que limita as pessoas que os têm.
Mas ninguém sabia que ele os tinha…
Toda a história começa num dia, há uns bons anos atrás, quando eu e a minha família estávamos a ir para o Santuário de Fátima até que do nada o meu pai que ia a conduzir vira o volante para a esquerda, passa toda a outra via, sobe o passeio e acaba por parar numa saída. Todos sobressaltados saímos dos carros para perceber o que tinha acontecido. O meu pai sai com um sorriso no rosto e nós a vermos se ele estava bem até que ele nos pergunta: Vocês não queriam tomar o pequeno-almoço? Estacionei o carro! Vamos lá!
Tudo isto fez com que ficássemos ainda mais preocupados. Sentamo-lo até que ele se recompôs e percebeu que tinha acontecido alguma coisa. Na altura achamos que tinha sido os diabetes alterados que pudesse tê-lo alterado levando a fazer aquilo. Seguimos viagem…
Uns anos mais tarde o meu pai chegou a casa do trabalho com a parte esquerda da cara toda arranhada. Quando lhe perguntamos o que se tinha passado, deu uma desculpa esfarrapada… Uns meses mais tarde apareceu com o outro lado da cara arranhada também. Deu outra desculpa porque sentia-se mal por não se lembrar. Sim, descobrimos mais tarde que ele não se lembra do que lhe acontece.
Depois as coisas começaram a tornar-se mais frequentes porque até lá tinham passado anos entre umas coisas e outras, o que fez com que nunca nos tenhamos apercebido da ligação.

Um dia o meu pai foi fiador de um sobrinho e no momento em que teria que assinar o documento, não sabia assinar. O banqueiro percebeu que alguma coisa se passava e tentou fazer-lhe entender devagarinho e aceitou que fosse um sarrabisco e ele lá conseguiu. Achamos melhor ele não conduzir e o meu primo levou o carro. Ao chegar a casa apercebeu-se que estava dentro do carro dele e não estava a conduzir e ficou encavacado.

Numa madrugada, eram entre as 4h30 5h a minha irmã estava doente e não estava a aguentar de dores na cama e o meu pai foi a uma farmácia de urgência e no caminho teve um acidente. Novamente ele não sabia dizer como aconteceu.
O meu precisava precisava de tratar do taco de nossa casa e então estava com a rebarbadora na casa do meu avô. Estava a conversar com o meu tio e o meu avô e do nada desligou a rebarbadora e foi ao portão e começou a discutir porque os camiões ainda não tinham chegado para carregar (o meu pai trabalha como condutor de aparelhos elevados, logo carrega os camiões na empresa), do nada ele volta, pega novamente na rebarbadora e continua o que estava a fazer e a conversar com eles.
Já eram muitas coisas a acontecer e fomos à médica de família que não se interessou. A minha mãe explicou-lhe tudo e ela interrompeu e quis que fosse o meu pai a explicar em vez da minha mãe. A minha mãe explicou-lhe que ele não se lembrava do que lhe acontecia. Ela pediu que ele fizesse umas análises ao sangue. Percebemos logo que não ia ser isso que ia determinar o que ele tinha. Fomos então a um médico particular que tinha sido o nosso médico de família de sempre. Ele atendeu-nos super interessado e disse-nos que o que o meu pai tinha eram uns "novelos de lã" que rebentavam mas não sabia ao certo que tipo de doença era, só com exames teria a certeza e para isso era necessário uma ressonância à cabeça. Como já desconfiávamos, a médica de família não passou essa ressonância. Era um custo muito grande para o estado, dizia ela.
Não sabíamos o que fazer porque o valor das ressonâncias magnéticas à cabeça eram o valor de um ordenado mínimo da altura e em casa eram necessários os dois e bem contados.
Decidimos marcar uma consulta numa neurologista. Fomos à consulta e ela pediu uma TAC mas nessa TAC ela não conseguia perceber bem o que era e disse que só com uma ressonância. O esforço financeiro foi enorme mas tinha que ser… Fomos ao hospital de Riba d'Ave e marcamos a ressonância. No dia da ressonância ele entra para fazer a ressonância até que nos explicam que teria ainda que levar contraste o que seria mais dispendioso. O esforço foi feito porque o mais importante era a saúde do meu pai e percebermos o que se passava. Fomos mostrar os resultados à clínica e ela disse-nos o mesmo que o nosso antigo médico de família, um "novelo de lã" que sangrava. Aconselhou-nos um médico conhecido dela que nos iria ajudar muito melhor que ela mas seria a particular novamente e era no Porto! Fomos à clínica dele com a ressonância, ele viu e aí deu nome às coisas e disse que o meu pai tinha vários angiomas cavernosos. E um deles estava a sangrar e quando sangrava acontecia aquelas falhas que ele não se lembrava. Disse que nos enviava para o Hospital Santo António no Porto e aí seria acompanhado por ele. Colocou o meu pai na lista de espera para operar e medicou-o para as crises que são dadas como crises epiléticas. Não aquelas habituais que as pessoas conhecem mas sim com a #falta de memória". Uma lista de espera infindável…

Até que uma semana antes de eu fazer anos, os meus pais vão-me buscar à escola e no caminho para casa, tivemos um acidente mesmo ao chegar a casa. Do nada, o meu pai vira novamente o volante, passa toda a outra via mas desta vez bate contra umas grades. Desta vez ficou inconsciente o que foi ainda mais preocupante. Felizmente não tivemos grandes ferimentos. Só uns arranhões e pisaduras. Ligamos então para o médico a contar o que tinha acontecido e ele disse-nos que ele vai ser operado de urgência. O acidente foi numa terça feira, fomos ter com o médico na quarta e na sexta ligam do hospital a dizer que será internado na segunda para operar na terça. E assim foi! Dia 28 de Setembro foi operado. Dois dias depois eu fazia anos. Esteve internado até a outra segunda. Passou pelos cuidados intensivos o que assustou-nos mas explicaram-nos que era normal depois da operação, depois foi para os cuidados intermédios e finalmente para a enfermaria. Cara toda inchada e pisada, liga à volta da cabeça. A minha mãe achou melhor só me levar a vê-lo no fim de semana porque andava na escola. No dia do meu aniversário ele ligou-me, notava-se que estava débil mas sempre a tentar ser forte para eu não me aperceber. Deu-me os parabéns e eu lá me comportei e agradeci. Desligou e eu chorei como uma desalmada… A casa estava vazia sem ele e no meu dia de anos ele não estava lá e a minha irmã e a minha mãe chegariam a casa tarde, só havia tempo para jantar e deitar porque no dia seguinte era dia de escola e de trabalho. Custou-me muito por mim e por ele. No fim de semana que o fui ver já estava mais estável e por ele pronto para vir embora. Segunda trouxeram-no para casa e foi a felicidade. Casa cheia, família e amigos que nunca nos deixam sós. Até porque na semana que ele esteve internado ofereceram jantar para não nos cansarmos mais.
No final, uma operação de sucesso, 4 meses de baixa e uma cicatriz incrível que nem se nota.
Ele tirou o angioma que sangrava há 8 anos e neste momento ele tem mais 2 angiomas na parte de trás da cabeça que estão "adormecidos" e o melhor é continuarem assim porque estão num sítio complicado de se operar.
É vigiado todos os anos com ressonâncias magnéticas no Hospital Santo António.

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